territórios da América Latina e do Caribe desembarcaram em Brasília. O
grupo se reuniu no Itamaraty para discutir respostas à crise global de
refugiados. O encontro ajudou a articular o Pacto Global sobre Migração,
apresentado nesta segunda-feira no Marrocos.
O ministro Aloysio Nunes Ferreira foi aMarrakech e discursou em defesa do documento. Instantes depois, seu
sucessor usou as redes sociais para desautorizá-lo. Ele anunciou que o
novo governo “se desassociará” do pacto. Em três tuítes, desmontou ao
menos dez meses de trabalho da diplomacia brasileira.
O futuro ministro Ernesto Araújo alegou
que a imigração, um problema que desafia países em todo o mundo, “não
deve ser tratada como questão global”. O argumento se alinha às teorias
de que a Terra é plana e de que o homem não foi à Lua. São teses em voga
no submundo da internet, de onde parecem sair as novas diretrizes da
política externa.
O pacto foi assinado por cerca de 160países. Ao abandoná-lo, o Brasil se juntará a um pequeno grupo liderado
por Donald Trump. A lista inclui Polônia, Hungria, e Áustria, nações
governadas por populistas de extrema-direita. Na América do Sul, só o
Chile escolheu seguir o mesmo caminho.
O anúncio de Araújo reforça os sinais de
que o Brasil embarcará numa relação de vassalagem com Washington. Isso
já ficou claro quando o presidente eleito atacou a China, ameaçou sair
do Acordo de Paris e prometeu transferir a embaixada em Israel para
Jerusalém. Os três gestos criaram atritos com países amigos e arriscam
prejudicar as exportações brasileiras.
No caso da migração, a opção pelo
isolamento tem um problema adicional. Hoje há cerca de um milhão de
estrangeiros vivendo no país e pelo menos o triplo de brasileiros no
exterior.
O pacto estabelece políticas que poderão
proteger esses três milhões de brasileiros — um grupo mais numeroso do
que a população do Distrito Federal. E, ao contrário do que sugeriu o
futuro chanceler, o documento não representa riscos à soberania
nacional.
Por Bernardo Mello Franco – O Globo.





