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20 anos sem Afonsim.

E PRONTO!!!
Há exatos vinte anos, em 27/03/2001, por volta das 10:00 horas da manhã, falecia vítima de um trágico acidente automobilístico, o jovem Afonso Ferreira Neto. O fatídico acidente ocorreu no trecho da BR 232 compreendido entre os municípios pernambucanos de Pesqueira e Sanharó, onde o Vectra conduzido pelo prefeito que seguia sentido Recife a serviço do município, colidiu na lateral de um conjunto composto por cavalo mecânico e carreta que seguiam em sentido contrário.
Afonso Neto, ficara popularmente conhecido por Afonsim e havia se sagrado vitorioso para o cargo de prefeito no pleito eleitoral do ano de 2000 nas eleições majoritárias do município de Santa Terezinha – PE, numa chapa que teve como vice Teógenes Lustosa, recebendo o apoio de diversas lideranças, dentre as quais, Evaldo Machado, Gedilson Vicente, Seu Elpídio, Miguel do Foto, Choca, Dona Lourdes, Dedé Vicente, Dona Nila, Seu Dão, Zé Mago e Andrade.
Atingindo uma votação de 2.900, a maioria com relação ao segundo colocado foi de 514 votos, elegendo nessa esteira cinco vereadores: Delson Lustosa (464); Chico França (261); Júnior de Branco (256); Antonio Germano (252); e Valdeci Belino (237). A campanha de Afonsim ficou marcada na história política de Santa Terezinha – PE por algumas particularidades. Todavia, é necessário contextualizar um pouco essa história para que os mais jovens possam entender.
Afonsim ao lado de seu irmão Dada de Adeval que ano de 2004 foi eleito vice prefeito, representam a terceira geração de políticos de uma família que teve seu avô paterno como maior liderança. Seu Afonso assumiu o protagonismo político do município ao se eleger prefeito no ano de 1972, tendo disputado este pleito pela oposição ao então prefeito. Na eleição seguinte, apoiou e elegeu Seu Joca Balduíno que na época era seu vice-prefeito. No ano de 1982, Seu Afonso volta novamente a disputar a eleição municipal, desta feita pela situação, haja vista que Seu Joca o apoiava.
No ano de 1988, é eleito prefeito de Santa Terezinha com o apoio de Seu Afonso a pessoa de Danda Martins, que, após quatro anos, é sucedido pela segunda geração política da família de Seu Afonso, sendo este Adeval Ferreira de Andrade, que vinha a ser filho deste e pai de Afonso Ferreira Neto (Afonsim).
Com a morte do avô de Afonsim ocorrida no ano de 1993, primeiro ano da gestão de seu pai Adeval, a família dos Brejeiros, como é popularmente conhecida, tem durante os anos de 1997 e 2000 o seu primeiro hiato na política local, uma vez que o candidato apoiado por Adeval foi vencido pelo candidato da oposição.
Na campanha de 1996, os Brejeiros se aliaram a corrente política que tradicionalmente militavam no campo das oposições e tinha como liderança estadual o verdadeiro mito, que atendia pelo nome de Miguel Arraes. Em que pese não tenha esse grupo logrado êxito nas eleições municipais no ano de 1996, já, no ano de 1998, eles conseguem fazer Dr. Arraes o candidato majoritário para o cargo de Governador no município de Santa Terezinha apesar de perder a eleição em nível estadual. O grupo na época fechou questão e apoiou pra Deputado Federal Eduardo Campos, e para Deputado Estadual Gilberto Rodrigues, que havia sido Presidente da EMATER e tinha orgulho de afirmar que era terezinhense, pois tinha nascido nos Fundões, que vem a ser uma das várias comunidades rurais que pertencem ao território terezinhense.
Com uma militância aguerrida, o grupo político que era denominado de Boca Preta, precisava de um nome para disputar às eleições do ano 2000. O favoritismo era divido na época por Arodo Romão de Araújo (Pai de Teógenes e filho de Nozinho Romão), experiente político que já havia disputado a prefeitura em duas ocasiões (1982 e 1988) e por uma manobra política não pode disputar a campanha de 1996, onde provavelmente seria o vencedor. O outro favorito era um neófito na política, que pelo seu trato com os mais velhos, quando trabalhou no extinto FUNRURAL - órgão que lidava com o povo mais idoso - e mais tarde com o público mais jovem, quando atuava como porteiro da Escola Estadual Santa Terezinha, além da tradição política de seus ascendentes, esses atributos também credenciavam Afonsim como favorito.

Pelos critérios estabelecidos pelo grupo dos Boca Preta, os candidatos seriam escolhidos pelo povo, e não mais por uma decisão isolada, proferida apenas por aquele que detinha o status de liderança política municipal. É certo, que por razões óbvias, o correto seria que a chapa da oposição fosse composta por Arodo, tendo como vice Afonsim.

Ocorre que ainda no início do ano 2000, Arodo Romão, infortunadamente, não resiste a um procedimento cirúrgico realizado na cidade do Recife, e falece precocemente. Com isto, Afonsim é quase que automaticamente alçado a condição de candidato, restando agora escolher o seu companheiro ou companheira de chapa. Na época, no campo das oposições existiam dois partidos: o PSB, onde Arodo, Afonsim e outros estavam filiados, e o PPS que tinha dentre os vários filiados, a Vereadora Socorro Melo e o Vereador Andrade, dentre outras lideranças.
Após diversas reuniões, Dona Socorro corajosamente se lança candidata na terceira via concorrendo pelo PPS com a legenda 23, fazendo com que o pleito eleitoral do ano 2000 tenha três chapas concorrentes aos cargos de prefeito e vice-prefeito. Pela situação, e com o apoio do Governo do Estado (Jarbas Vasconcelos), se apresentam pelo antigo PFL com a legenda 25 e cor amarela os então gestores municipais Danda Martins e Manoel Grampão. Por fim, concorrendo também pela oposição, saem candidatos dois jovens que mais tarde foram apelidados de “os anjinhos”. Eram eles, Afonsim como prefeito e Teógenes como vice, ambos filiados ao PSB, que tinha como legenda o número 40 e a cor vermelha.
Nessa campanha podemos apontar várias curiosidades, vejamos algumas delas. Foi a primeira vez que a votação ocorreu nas urnas eletrônicas. Até então o voto era realizado por meio de cédulas de papel e depositados numa urna de lona. A apuração ocorria de forma manual e era realizada em outro município. Foi também a primeira vez que houve um candidato a prefeito disputando a reeleição. Até o ano de 1996 não existia essa possibilidade. Só depois de dezoito anos houveram três chapas disputando a eleição de prefeito. A primeira e última vez que isto havia acontecido foi no ano de 1982, onde disputaram a prefeitura Seu Afonso, Arodo Romão e Neco Bento.
A campanha de 2000 ficou marcada na memória do povo terezinhense. Foi nesta eleição que duas pessoas sem qualquer experiência política entram numa disputa num cenário totalmente desfavorável, afinal, o concorrente direto era nada mais nada menos que o então prefeito, que tinha vasta experiência política, uma vez que desde o ano de 1978 vinha disputando sucessivas eleições obtendo êxito em todas elas.

 

Todavia, a campanha de Afonsim desde o início ganhava volume. Uma da provas é que inicialmente a convenção estava marcada para o prédio da Câmara Municipal, que na época era um pequeno espaço que poderia ser preenchido facilmente. Contudo, após um processo de escuta das lideranças, percebeu-se que aquele espaço era pequeno, tendo sido necessário protocolar novo comunicado a Justiça Eleitoral informando que a convenção seria realizada na mesma data (30/06/2000) porém em outro local, qual seja, a Escola Municipal José Paulino de Siqueira.
A disparidade econômica entre os candidatos restou flagrante logo de ínicio. Enquanto o candidato da situação convidava a população para convenção e anunciava a presença de um trio elétrico, por sua vez, a oposição, representada por Afonsim e seu grupo, optou pela animação da Banda Águia Dourada composta por artistas terezinhenses (Suênio no vocal, Edson na Sanfona e Valdir nos teclados). Foram estes que gravaram a música denominada de “Solução” que deu o tom da campanha, sendo esta imortalizada meses depois por seu proprietário e tecladista Valdir, que, acolhendo a ideia das enfermeiras Juberlita Lustosa e Cecília Adauta, a regravou sem o vocal e em tom solene. Essa versão foi tocada somente durante o cortejo fúnebre de Afonsim.
Era uma paródia da música cachaça e mulher bonita do já renomado cantor paraibano Tom Oliveira, que aliás fez um show no pátio do mercado no dia da posse dos eleitos. Embalados por essa música que era composta por diversos versos que faziam críticas e apontavam os erros do então prefeito que disputava a reeleição, trazia como refrão “para Santa Terezinha Afonsim é a solução”.
A população, sedenta por mudança - que, por sinal, era o lema da campanha de Afonsim: “mudança, esse é o caminho”- se fazia cada vez mais presentes nos eventos realizados em muitas ocasiões de forma espontânea, sem que os responsáveis pela coordenação ou até mesmo os candidatos tivessem influência.
Existem relatos de comerciantes tidos como avarentos que contribuíam voluntariamente com a campanha. Pessoas do povo tidas como paupérrimos faziam questão de dar sua contribuição, por mais pouco que fosse. Até mesmo pessoas que não votavam com Afonsim, faziam questão de contribuir com a campanha, deixando sempre claro que não poderiam o ajudar com o voto.
Foi nessa campanha que foi possível aferir que os chefes de família não controlavam mais os votos dos seus filhos. Enquanto os pais mantinham seu voto no candidato da situação sob o argumento de que eram partidários, os seus filhos, a revelia daqueles, votavam na mudança. O eleitorado de Afonsim e Teógenes eram, em sua grande maioria, os mais jovens, militância valente e aguerrida que, com sua energia peculiar, alavancavam dia após dia a campanha do vermelho, do 40.
Havia um seleto grupo de universitários e trabalhadores que residiam em João Pessoa e Campina Grande que eram presença certa nos eventos principais. Por sua vez, Severino Brito e Galego Salviano arregimentavam o povo que morava em São José do Egito, mas que votavam em Santa Terezinha e os conduziam para os comícios de Afonsim. Severino, que é poeta, fazia questão sempre de recitar alguns versos de sua autoria.
Há relatos de realização de eventos políticos em favor de Afonsim até mesmo na comunidade do Jaguaré, que está localizada na cidade de São Paulo. Registrou-se também uma inédita passeata puxada por uma bicicleta dotada de um pequeno sistema de som, organizada a época pelo filho primogênito de Afonsim, chamado de André de Afonsim, que hoje representa a quarta geração da família dos Brejeiros, exercendo na atualidade o seu segundo mandato de vereador.
A campanha de Afonsim, ostenta até o hoje o título de maior comício realizado por um candidato de oposição. Neste comício que teve data, uma sexta-feira dia 15/09/2000 e lugar o pátio do mercado municipal, foi prestigiado pelo ex-governador Miguel Arraes e o então Deputado Federal Eduardo Campos, sendo estes, naquela época, as maiores lideranças da oposição Pernambucana. Estes brilhantes oradores foram ouvidos por uma enorme massa popular vestida majoritariamente de encarnado, que se manifestavam com aplausos, gritos, além do famoso “V” da vitória.
As atividades oficiais da campanha de Afonsim se encerram na quarta-feira, dia 27/09/2000 com um comício realizado a noite e marcado por uma volumosa multidão presente, embora menor do que aquela que compareceu no dia 15. Antes, porém, por volta das sete da manhã daquele dia 27, foi realizado um evento espontâneo denominado de café da manhã, onde a população promoveu uma enorme passeata (arrastão). Logo após, foi feito uma carretara onde se registrou, inclusive, a presença de caminhoneiros e carreteiros. Mais tarde, no período da tarde, foi realizado outro evento, desta vez uma cavalgada. Nestes três eventos eram possível notar a empolgação do povo. A alegria era contagiante fazendo com que cada eleitor fosse também um militante do 40.
O dia da eleição transcorreu normalmente, com a presença dos candidatos sempre rodeados por seus eleitores, sendo o resultado sido conhecido antes mesmo das 18:00 horas. As comemorações da vitória se estenderam até a madrugada e no dia seguinte tiveram continuidade.
Daquela eleição, além das alegres e saudáveis lembranças, sobraram também várias lições. A primeira delas é a inversão da lógica de que quem detêm o poder econômico, consequentemente detêm o poder político. Afonsim e Teógenes disputaram a eleição com recursos que não eram suficientes sequer para bancar a estrutura da campanha. As doações, em sua grande maioria, não eram em dinheiro. Eram na forma de carros para transporte dos eleitores, de bebidas e lanches para servirem nos eventos, de caixa de fogos e até mesmo combustível. Logo, é de se concluir que se dinheiro fizesse vitorioso o candidato, naquela oportunidade Afonsim e Teógenes jamais seriam vencedores, haja vista que ambos não dispunham de recursos financeiros.
Outra lição deixada foi a organização. A campanha era tocada por um coordenador geral que por sua vez era auxiliado por alguns subcoordenadores, cada um um tinha sua atribuição. Faziam parte desta coordenação, basicamente, além de mim, Valmir Andrade, os irmãos Tadeu, Dimas e Dilson de Dona Jovem, Zuza, Naldinho de Edimilson e Suelmo de Zumba, é bem verdade que tinham outras pessoas que também contribuíram. Fica desde já o meu pedido de desculpas por não citá-los em razão do lapso de memória. Semanalmente às segundas-feiras acontecia uma reunião para planejamento das ações da semana que se iniciava. A reunião era deliberativa e a decisão era tomada pela maioria. Exercia o direito a voto nessas decisões, além da coordenação, os candidatos. Muitas vezes Afonsim foi voto vencido e com muita humildade acatava a decisão da maioria.
O governo de Afonsim, embora curto, trazia pistas de que seria exitoso. Foi nele que a grande maioria dos secretários nomeados tinha familiaridade com a pasta e competência para exercer o cargo. O novo Prefeito acreditou na prata da casa, escolheu a dedo seus auxiliares e ouvia a todos sempre com uma invejável paciência que lhe era peculiar. Um flagrante exemplo de respeito a competência e a prata da casa foi que, no governo de Afonsim, a Procuradoria Municipal ficou à cargo da terezinhense Ângela Cruz, que embora jovem, já era uma brilhante e responsável advogada. Ela é terezinhense e filha do Casal Dudu e Marluce. Meses após o falecimento de Afonsim, Drª Ângela pediu exoneração do cargo e há quase duas décadas é Promotora de Justiça no Estado de Pernambuco.
Com um discurso onde sempre fazia inserir a frase “empenho e dedicação” a eleição de Afonsim deixa também como legado a franqueza, a sinceridade, o respeito e a humildade de um jovem que alcançou o cargo maior na estrutura política de seu município, sem que para isso fosse necessário comprometer a sua gestão por promessas impossíveis de realizá-las, evitando, deste modo, o cometimento do estelionato político eleitoral tão em voga nos últimos tempos. E pronto!!

 Por Arystófanes Rafael

Advogado



Gilson Pereira

Locutor e apresentador, Blogueiro, Funcionário Público e Acadêmico de Letras.Trabalho - Ocupação Identificador Civil e Criminal


3 “20 anos sem Afonsim.

    1. Gostei muito boa a política de Santa Teresina limpa,honesta e cheia de lutas.

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    2. Gostei muito boa a política de Santa Teresina limpa,honesta e cheia de lutas.

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    3. Lindo relato. Nunca tinha lido. Parabéns ao relator.

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